Hoje Abril

Por falta de espaço para gerir os acontecimentos que me assaltam os sentimentos ao longo dos dias, perco a vontade de abrir a minha janela e olhar para lá  das vidraças o mundo que me rodeia.
Mas hoje escancarei-a e debrucei-me para arejar as ideias e deixei esvoaçar as cortinas da minha imaginação voarem tão longe que dei por mim diante daquele dia em que a Maternidade Mariana Martins foi encerrada.

Diante da ilusão na luta pelo seu funcionamento, na recolha das assinaturas para um baixo assinado que não foi entregue em lado nenhum, do protagonismo que a causa deu a algumas caras ao cocarem-se ao lado da interessante defesa do Dr. Melo e Sousa sustentada por um testamento em que a benemérita doava a cidade em favor da mulher, do parto e crianças.

Essa lembrança causa-me ainda algum constrangimento, porque as mentiras e os oportunismos que envolveram todo o processo se transformaram em terrorismo para com as funcionárias da Fundação que ficaram durante 7 meses dentro das instalações da mesma impedidas de trabalhar.

Diante dessa lembrança do passado vejo-me no presente onde o Hospital de Elvas se encontra sobre a ameaça de ver cumprido o projeto iniciado com encerramento a sala dos partos da Maternidade, e que tinha a finalidade, encerrar as urgências.

Grito em silêncio para lá da minha janela, agoniada com malabarismo que a mentira tem feito ao logo do tempo vencendo e convencendo o povo a calar e a perder sem reivindicar aqueles direitos conquistados num dia de Abril.


O coração acelera com esse pensamento e sinto uma espécie de raiva  e nojo dessa gente sem escrúpulos que durante quarenta anos destruiu a liberdade de Abril e o sonho dos portugueses.

VOLTASTE

Ai como foi bom acordar nos teus braços, sentir esse beijo quente e suave na minha pele e se não fosse o vento a baloiçar nos ramos daquela árvore eu tinha escancarado para ti, a minha janela. Mas fiquei um pouco mais ali deitada, a contemplar-te enquanto tu percorrias os contornos do meu rosto, ofuscando-me a visão com a reste-a de luz com que me acariciavas.
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Já tinha gritado nalguns momentos o teu nome e quase desesperei com saudades do teu calor, dos teus cheiros, das tuas cores e da felicidade que me fazes sentir quando apareces. Tudo floresce ao teu redor e até as aves se alegram no céu ao sentir a tua presença.

Que bom saber que vais ficar por cá, algum tempo, que me vais acordar e fazer sorrir a cada manhã e que o cinzento vai ter luz e os teus abraços quentes vão matar esta saudade que sinto cada vez que te ausentas da minha janela, quando vais para outros lugares.

Mas quando regressas, não vens sozinho. Com pincéis de luz  pintas arco-iris e flores de todas as cores em paisagens estonteantemente belas nessa tela gigante que é o meu Alentejo, e trazes contigo a primavera.

DEPOIS DO ADEUS


Parada diante da minha Janela, vejo um rosto refletido entre mim e a paisagem por de trás da vidraça, cabelos revoltos, desgrenhados e os olhos ainda semicerrados, inadaptados ainda à luz o dia. Sorri ao reflexo de mim ainda desacordada,
O dia despertou-me de modo diferente, com ramos de luz de cores mais alegres, vivas e acrescenta um pouco mais de tempo a cada amanhecer. Olhei ara lá das vidraças, bem longe de mim, mentalmente trauteando a melodia dum fado que me tinha ficado no ouvido e que adormecera comigo, deixei-me voar nas asas desse poema até acordar.
O dia passa ao meu redor, com muitas novidades, acontecendo cada coisa no seu tempo, até que me vejo sentada com as mãos sobre o teclado do computador e os olhos presos na série televisiva “Depois do Adeus “.
Eu queria escrever sobre todas as coisas, que nos fazem sentir alegria, mas a ideia dissipou-se de repente ao reconhecer-me nalgumas daquelas cenas, naquela liberdade alcançada no dia 25 de abril, onde os sonhos voaram para la das limitações que a ditadura impunha em fronteiras de escravidão, tão diferentes, mas tão iguais às dos novos tempos.
Uma lagrima cai pela minha face e aquela sensação de frustração aperta-me o coração mais uma vez, ao lembrar meus sonhos de menina, mas também do sonho de muita gente que acreditou que um dia “depois do adeus”, seriam livres.
Ficou na história a memória as ideias desses capitães de abril que sem querer ajudaram a enriquecer mais uns quantos que ainda hoje se sustentam à custa dum povo cada vez mais escravo e mais pobre.

O Sol que me acordou foi-se embora e o dia tornou-se cinzento, com frio e ventos que arrastam as lagrimas caídas do céu em rajadas fortes contra as vidraças da minha janela, qual tela onde pinto o sonho do “fado que não cantei”.

Quem dera

Quanto tempo sem abrir a minha janela e sem espreitar através dela, esse mundo onde me encontro e me perco tantas vezes em aventuras fantásticas que invento dentro do meu imaginário, qual refúgio onde me escondo da cruel realidade, decadente e tenebrosa que o mundo atravessa.


Fujo da inalação do fedor putrefacto da maldade e da voz horrenda da mentira que domina a humanidade, fazendo os valores perecem no coração do homem. Nesse lugar que eu sonho, invento e reinvento, metamorfoseando-me em cada palavra em paisagens de esperança através dessa janela onde tudo é paz e amor.


Com muitas primaveras e muitos Outonos quentes, com águas a correr pelas encostas da minha fantasia, aves a cantarem melodias que invento na pauta da minha imaginação e escrevo entre as cores febris do meu arco-íris, nessa tela que imaginária onde palpita alegremente o meu coração.

Quem dera que na realidade não predominasse o cinzento, nem a mentira tivesse o poder de conduzir o mundo às trevas onde a maldade tem a cor da morte.


Quem dera…

Tudo tão igual a outros tempos

Passaram muitos anos mas parece que foi ontem. Eu comecei a trabalhar logo que acabei a escola primária, percorri a pé durante muito tempo o percurso de quase vinte quilómetros, entre ida e volta a casa até conseguir comprar uma bicicleta, meu primeiro transporte. Meus pais, não tinham condições para me por a estudar, mas eu tinha o sonho de ser veterinária, pois sempre me apaixonou os animais de quatro patos, pela sua inteligência e ausência de maldade que muito abunda na humanidade, mas como era necessário ajudar a casa naqueles tempos de necessidades, só pude ingressar na escola nocturna depois de atingir a idade permitida na época, mas tirei um curso como estudante trabalhadora, como muitos jovens da minha época o fizeram, sem pedir ou dever nada ao estado português. Mas o 25 de Abril aconteceu, e com ele nasceu o alento, a esperança e os sonhos, perspectivou-se uma vida melhor, mais justa e humana, para o futuro, haveria democrática e menos distância entre o povo e as riquezas de alguns e que todos contribuiriam para economia da nossa querida nação livre da ditadura e da PIDE. Atingiríamos a reforma e iríamos passear e visitar outros países como aqueles turistas que meus pais tanto admiravam mas nunca tiveram condições para imitar, mas eu chegaria lá, pensavam eles, com essa democracia cheia de justiça e dignidade. Mas o tempo passou, mas a democracia não, transformou-se numa palavra que todos passaram a usar como plataforma da mentira e através dela, continuarem a escravizar o povo retirando-lhes as regalias e direitos adquiridos e levando-o até ao suicídio. As famílias, muitas regressaram ao passado principalmente os mais velhos e os da minha geração ou pior ainda, a luz do velho candeeiro a petróleo ou da vela voltaram aos mesmos lugares e compram as aparas de carne para o cão mas transforma-se em refeições para a família e isso faz-me lembrar os tempos dos meus pais em que o frango só vinha para a mesa em ocasiões muito especiais. Temos tudo a distância dum clique com as novas tecnologias, muita informação para pesquisar, mas a cadeia invisível que nos acorrenta ao sistema muito mais perigoso que a PID dos outros tempos. Temos tudo tão próximos pelas imensas redes sociais, que nos ligam ao mundo global, mas tudo tão igual como convêm, para que continuemos escravos, não dum regime fascista, mas duma farsa a que chamam democracia, onde a justiça é uma mentira que só beneficia o crime seja ele qual for desde que tenha luvas brancas e poder. Os desfalques na banca, BPN, as derrapagens, branqueamentos de dinheiro, falcatruas e mais falcatruas, e muitos os negócios sujos que levaram os país a falência, mais as fortunas que se gastam para ilibar esses criminosos, arrastando o tempo até que prescrevam os crimes e transformar-nos a nós povo culpado pelo estado da nação. A justiça sabe onde se esconde o dinheiro, conhece os ladrões e o que faz? Por acaso o foi resgatar ou obrigou a devolverem-no? Tudo isso gera negócio, vende jornais e entre muitas coisas que nós ouvimos, mais perece gozarem com o povo, pela submissão a que nos obrigam. Eu penso que as diferenças e as dificuldades de hoje são maiores porque naquele tempo valia-nos a ignorância que nos poupava ao sofrimento de ver e ser obrigada a calar. Hoje eu e muita gente com minha idade apavora-se ao pensar na reforma com medo dos cortes e de não poder cumprir dignamente com obrigações, porque o estado nos obriga a pagar dividas que não fizemos , quando de acordo com os ordenado que recebemos, nós pagamos  a nossa contribuição sem nos perguntarem se podia-mos faze-lo naquele ou no outro mes. Desengane-se aqueles que algum dia acreditou que vivia em democracia ou em liberdade.

Saudade

Hoje visitei o lugar da minha janela onde há muito tempo não me via debruçada a espreitar a paisagem das minhas vivencias que fizeram historia da minha vida. Olhei com nostalgia atreves das vidraças do tempo que passou e pareceu-me que me vi ontem, a entrar no avião para voar até a Guiné-Bissau, para cumprir seis meses de voluntariado, na Maternidade do Centro Medico da Casa Emanuel e no entanto já regressei a mais de um mês a Portugal.
O cansaço ainda me faz doer o corpo, mas o coração soma todos os dias saudades das amizades e de todo um conjunto de situações emoções que experimentei dentro do campo missionário onde trabalhei, por isso deixo-me passear por entre essas vivencias debruçada no mural
dessa janela que invento e matar a saudade desse lugar longínquo onde a vida feita de nadas, me ensinaram e enriqueceram tanto
O coração dentro do meu peito acelera e uma lágrima desliza na minha face.
Lembro-me das pessoas com quem trabalhei ensinei e convivi, pessoas diferentes de lugares ainda mais distantes, e de outras nacionalidades, pessoas que me ensinaram a olhar para a vida de uma outra perspectiva e descobrir novos horizontes para sonhar.

Saudades