Descansa em paz

Hoje preciso abrir a minha janela para arejar as minhas ideias e gritar em palavras o silêncio que vem incomodando todos os meus sentidos, causando-me um aperto no coração, pois tenho ficado escondida por detrás das cortinas imóvel e incapaz de chorar. Procuro na memória as poucas lembranças, que guardo do meu irmão dos poucos mementos em que convivemos pois separaram-nos as lonjuras, das cidades onde morava-mos, o rumo que a vida deu a cada uma de nós e a grande diferença de idades que nos fizeram distantes, sem que alguma vez o amor fosse diferente. Vou sentir a tua falta, porque para além de seres meu irmão, muito mais velho, eras a fotocópia do pai, que eu revia cada vez que te visitava e que também nos deixou, à muito tempo e eu senti que foi sedo demais, por ser a mais a nova dos quatro irmãos. . Sinto-me incomodada e sem lágrimas para chorar a despedida que não tive tempo de fazer. Com a janela aberta olho o céu e meu coração diz descansa em paz meu irmão

Pedaço de mim

Os pensamentos desalinham-se, enquanto o coração acelera num pensamento distante, na cidade que me viu nascer, há um pouco de mim e do meu sangue agonizando num leito de hospital e dos meus olhos não caiem lágrimas, qual fonte onde a agua se cansou de correr para o nada. Aproximo-me da minha janela, tentando que o meu pensamento chegue tão longe, de tal forma que seja possível um abraço e um beijo, talvez o último de muitos que não dei. São poucas, muito poucas as lembranças que ficam de ti na minha vida, por terem sido breves os momentos que partilhamos e convivemos, mas és o meu irmão, muito mais velho que eu, com idade para seres meu pai, pois era assim que eu te via. O pai da sobrinha com a idade certa para ser ela a minha irmã. Tropeço nas saudades que sinto dos nossos pais,mas vou ter que acrescentar as que vou sentir por ti quando te tornares mais uma lembrança da família que pouco a pouco se vai desmoronando, quer pelas circunstâncias da vida ou porque o percurso chegou ao fim. Sinto as cicatrizes da minha alma a ferirem-me as entranhas e solidão torna-se medonha em gritos desesperados dentro do meu coração , os olhos de lágrimas inundam-se de lágrimas que não consigo chorar neste desespero. Anseio por noticias, pedindo a Deus que Jesus esteja ao teu lado e seja misericordioso contigo e não o deixe sofrer por muito tempo. Meu irmão é um Homem bom.

Aconteceu

O desânimo, tem-me roubado a vontade de abrir a minha janela e espreitar através dela, mas ontem fui atingida por um dardo inflamado de maldade que me provocou mais que a indignação provocada pelos corruptos e ladrões que crescem como cogumelos no meu querido país.

Admiro tantas as pessoas educadas e respeitosas, porque é assim que me dirijo a toda a gente, independentemente das idades, etneias ou raças com quem convivo, diariamente.

Mas, não foi assim num determinado sítio, balcão de atendimento a onde em determinado momento me dirigi a fim de fazer um pagamento e deparei-me com a antipatia e a má educação numa espécie de gozo que quase me fizeram explodir.

Controlei-me e chamei à atenção pela forma grosseira com que me estavam a atender.

Tudo porque pedi informações, sobre o como? E porquê? Se tenho que ser que ser sócia,
perguntei detalhes e então como associada  deveria ter direito a um cartão, certo ?

Mas sem querer , incomodei bastante.

Porque pouco tempo depois, aconteceu algo extraordinário, uma pessoa
do sexo feminino, que eu não conheço, pois  não estava identificada,
entregou-me um cartão feito ali as pressas, com uma foto colada
acabadinha de ser retirada da minha página do facebook

E a falta de educação que me indignou no inicio do atendimento
culminou com esta espécie de gozo a roçar a humilhação, impregnada de maldade e falta de
respeito.  

Fecho a janela por hoje , com um sentimento de pena , muita pena, a rondar o meu coração.  

Frio

O dia adormeceu envolto num manto negro e gelado, usado especialmente nesta quadra natalícia em que as temperaturas descem para os graus negativos. Aproximei-me da janela, mas o ar condensado da minha respiração, mais o nevoeiro denso e pesado não me deixaram ver para lá das vidraças. A Kika juntou-se a mim e subiu para o parapeito da janela, dando-me marradinhas nos meus braços, espreguiçava-se e esticava o pescoço tentando espreitar para a rua onde a luz do candeeiro parecia um pirilampo no meio daquela neblina. A Dará sentada no tapete, espetava as orelhas como quem pergunta o que estávamos a fazer àquela hora debruçadas na janela. Sorri para ela e fiz-lhe uma festa, porque eu e ela tínhamos acabado de levar a minha irmã à carrinha de transportes dos bombeiros que a levou, às 6 horas da manhã, até Portalegre onde ela faz hemodiálise 3 dias por semana. Voltei a deitar-me, mas o sono tinha-me deixado com tempo suficiente para eu percorrer pensamentos que nesta altura me fizeram rir e chorar ao mesmo tempo. Época natalícia, celebração do nascimento de Jesus, festa em que as famílias se reúnem, vencendo distancias, ultrapassando discórdias para festejar o amor. e por um momento o coração contraísse-me no peito e faz-me lembrar que não tenho descendência, e que ninguém vem, nem de longe nem de perto celebrar o Natal comigo e umas lágrimas despenharam-se pelo meu rosto e morreram no meu sorriso porque este natal eu não vou passar sozinha.

Raiva

Hoje apetece-me abrir a janela e gritar ao vento este sentimento desconfortável provocado por essa sociedade putrefacta e mal cheirosa onde as mentiras de tanto se repetirem são instituídas como verdades e se revestem de atractivos que fazem luzir o homem, ao ponto de se deixarem dominar pela cobiça e possuir o que não lhe pertence, querendo mais e mais, sem nunca haver um basta. Gritar contra aqueles que usam a politica para seu próprio conforto esquecendo que politica, (denomina-se a arte ou ciência da organização, direcção e administração de nações ou Estados ), não os interesses pessoais, nem para o seu próprio enriquecimento, nem para que escravizarem o povo. Disputam-se lugares que não querem perder, desfalca-se o país com politicas fraudulentas, que beneficiam a conta pessoal e o ego de alguns lidres, com mentiras e favorecimentos, enganam o povo a conta duma justiça que não funciona porque as leis as fabricaram eles. Verdadeiro estrume dentro e fora do parlamento onde alguma gente séria, "que será pouca", outros passivos deixam-se enebriar com os maus cheiros ou mergulham no sono ou nentão nalgum jogo on-line mantendo assim a cadeirinha ocupada e ganharem o bem bom ao fim do mês. Ai que raiva ao ver ladroes de grandes fortunas “colarinho branco” protegidos por essa justiça, que não obriga essa gentalha a devolver o que roubaram dos cofres do estado e por conseguinte dos bolsos do povo. E gritei assim no silencio das palavras o que me faz doer na alma ao olhar para lá dum sonho que a ganância pelo poder frustrou, transformando a politica em gatunagem, desacreditando quem a use.

As histórias começam assim:

Era uma vez uma menina, que morava numa aldeia ali para os arredores de Coimbra, quarta filha de um casal já na casa dos 50 anos.
Essa menina era muito à frente do seu tempo , mas as necessidades no lar dessa menina obrigaram-na a ir  trabalhar muito sedo, em vez de  estudar como era do seu desejo. Primeiro para uma fábrica de malhas, depois para uma pastelaria na distribuição, a entregar pelas pastelarias,  quer chovesse ou fizesse sol,  carregando tabuleiros à cabeça a entregar a pastelaria pelos cafés da cidade de Coimbra.

Ela tinha pouco mais de dez anos quando recebeu o seu primeiro salário, em 1968 era admitida na segurança social.

Essa menina cresceu num regime onde até fazer amizades, era um atentado ao regime que governava o nosso pais e mais que duas pessoas a conversar era considerada uma manifestação. Trabalhou entre informadores da PID, a quem também se chamavam “ bufos”.
Essa mulher que quase não teve tempo para ser menina, acreditava que um dia as coisas poderiam mudar, mas para isso era preciso lutar contra as leis, desse regime ditador que limitava os horizontes do povo e do país, de crescer e se desenvolver, mas acima de tudo isso era o castigo dado pela PID a quem se atrevia a manifestar pensamentos ou opiniões contrários aos do governo.

Com a mala do carro cheia de latas de tinta e pincéis, ela e mais alguns crédulos amigos iam pala calada da noite, gritando em silêncio nas pinceladas com que escreviam as palavras contra a ditadura em desejos de liberdade.

E um dia sentada num dos bancos que ladeiam a Praça da Republica em Coimbra, quase que por instinto, correu também ao ver correr outros jovens em direcção a lugares diferentes. Mas esqueceu os cadernos em cima do dito banco. Ainda não tinha chegado ao colégio onde estudava, como trabalhadora estudante, já lá estavam os senhores das gabardinas, com os meus cadernos na mão.
E consequência dessa estúpida fuga, levaram-na com eles.
Foram horas e horas de perguntas para saber o motivo por que ela correu. Baralharam-na com nomes de pessoas, querendo que ela admitisse que conhecia alguns dos jovens envolvidos  naquele  manifesto no dia tal ou no lugar tal, cansaram-na e só não a massacraram mais porque conheciam o seu apelido e  aceitassem a  versão que lhes foi contada, que por acaso era verdade.
Ela viu correr pessoas e assustou-se e correu também, mas também correu por força do hábito.
E quando eram quase horas de almoço, o pai chegou, para a resgatar , mas antes de qualquer pergunta,  desapertou o cinto das calças e quando chega junto dela tira-o das presilhas e atira-o dobrado uma e outra vez, contra o seu corpo, com os olhos rasos de lágrimas, tendo sobre si os olhos fixos homenzinhos, daquela casa de terrores .
O pai bateu-lhe para a libertar e ela nunca esqueceu aquele dia


Aconteceu no século passado, no mesmo ano em que aconteceu Abril