Encontro


Ao avistar um amontoado de pedras caídas por entre um denso matagal de arbustos, senti uma força estranha que me empurrou e me fez avançar afastando as ferroadelas dos picos das sivas e das ortigas que se escondiam no meio das ervas. Há minha frente surgem os escombros do que um dia muito distante parecia terem sido uma casa, aventurei-me ainda mais e corri ao meu encontrar, ali estava a casa onde eu havia nascido.
Foi mágico esse momento, gritei, abri os braços como quem quer abraçar
e mimar esse tempo  fantasiando através das histórias que meus pais me foram contando do tempo que ali tinham vivido.
A minha sobrinha fotografava cada uma das minhas emoções, é até mesmo o instante tudo ganhou vida e eu me vi a correr naquele espaço e a baloiçar naquele enorme plátano onde meu pai tinha feito para eu brincar e que as crianças da casa ao lado empurravam enquanto eu  ria as gargalhadas.
Foi ali no aconchego daquelas paredes com as dificuldades daqueles tempos, que dei os primeiros passos e disse as primeiras palavras, foi ali que fiz as primeiras birras e dei as minhas primeiras  rizadas, mas para eu comer, tinham que cantar para mim.
Claro que diante daquele amontoado de lixo e pedras soltas que um dia foram paredes lembrei do motivo porque estava na minha terra natal e senti uma enorme dor no peito.

Ao ver o que restava da fábrica onde meu pai trabalhou, as chaminés de tijolo quase a tocar o céu e para onde ergui meus olhos marejados de lágrimas o meu coração soluçou de saudade dos meus pais há muito tempo me deixaram de contar as histórias do tempo em que vivi naquela casa e agora o meu irmão mais velho também partiu ao seu encontro 



Descansa em paz

Hoje preciso abrir a minha janela para arejar as minhas ideias e gritar em palavras o silêncio que vem incomodando todos os meus sentidos, causando-me um aperto no coração, pois tenho ficado escondida por detrás das cortinas imóvel e incapaz de chorar. Procuro na memória as poucas lembranças, que guardo do meu irmão dos poucos mementos em que convivemos pois separaram-nos as lonjuras, das cidades onde morava-mos, o rumo que a vida deu a cada uma de nós e a grande diferença de idades que nos fizeram distantes, sem que alguma vez o amor fosse diferente. Vou sentir a tua falta, porque para além de seres meu irmão, muito mais velho, eras a fotocópia do pai, que eu revia cada vez que te visitava e que também nos deixou, à muito tempo e eu senti que foi sedo demais, por ser a mais a nova dos quatro irmãos. . Sinto-me incomodada e sem lágrimas para chorar a despedida que não tive tempo de fazer. Com a janela aberta olho o céu e meu coração diz descansa em paz meu irmão

Pedaço de mim

Os pensamentos desalinham-se, enquanto o coração acelera num pensamento distante, na cidade que me viu nascer, há um pouco de mim e do meu sangue agonizando num leito de hospital e dos meus olhos não caiem lágrimas, qual fonte onde a agua se cansou de correr para o nada. Aproximo-me da minha janela, tentando que o meu pensamento chegue tão longe, de tal forma que seja possível um abraço e um beijo, talvez o último de muitos que não dei. São poucas, muito poucas as lembranças que ficam de ti na minha vida, por terem sido breves os momentos que partilhamos e convivemos, mas és o meu irmão, muito mais velho que eu, com idade para seres meu pai, pois era assim que eu te via. O pai da sobrinha com a idade certa para ser ela a minha irmã. Tropeço nas saudades que sinto dos nossos pais,mas vou ter que acrescentar as que vou sentir por ti quando te tornares mais uma lembrança da família que pouco a pouco se vai desmoronando, quer pelas circunstâncias da vida ou porque o percurso chegou ao fim. Sinto as cicatrizes da minha alma a ferirem-me as entranhas e solidão torna-se medonha em gritos desesperados dentro do meu coração , os olhos de lágrimas inundam-se de lágrimas que não consigo chorar neste desespero. Anseio por noticias, pedindo a Deus que Jesus esteja ao teu lado e seja misericordioso contigo e não o deixe sofrer por muito tempo. Meu irmão é um Homem bom.

Aconteceu

O desânimo, tem-me roubado a vontade de abrir a minha janela e espreitar através dela, mas ontem fui atingida por um dardo inflamado de maldade que me provocou mais que a indignação provocada pelos corruptos e ladrões que crescem como cogumelos no meu querido país.

Admiro tantas as pessoas educadas e respeitosas, porque é assim que me dirijo a toda a gente, independentemente das idades, etneias ou raças com quem convivo, diariamente.

Mas, não foi assim num determinado sítio, balcão de atendimento a onde em determinado momento me dirigi a fim de fazer um pagamento e deparei-me com a antipatia e a má educação numa espécie de gozo que quase me fizeram explodir.

Controlei-me e chamei à atenção pela forma grosseira com que me estavam a atender.

Tudo porque pedi informações, sobre o como? E porquê? Se tenho que ser que ser sócia,
perguntei detalhes e então como associada  deveria ter direito a um cartão, certo ?

Mas sem querer , incomodei bastante.

Porque pouco tempo depois, aconteceu algo extraordinário, uma pessoa
do sexo feminino, que eu não conheço, pois  não estava identificada,
entregou-me um cartão feito ali as pressas, com uma foto colada
acabadinha de ser retirada da minha página do facebook

E a falta de educação que me indignou no inicio do atendimento
culminou com esta espécie de gozo a roçar a humilhação, impregnada de maldade e falta de
respeito.  

Fecho a janela por hoje , com um sentimento de pena , muita pena, a rondar o meu coração.  

Frio

O dia adormeceu envolto num manto negro e gelado, usado especialmente nesta quadra natalícia em que as temperaturas descem para os graus negativos. Aproximei-me da janela, mas o ar condensado da minha respiração, mais o nevoeiro denso e pesado não me deixaram ver para lá das vidraças. A Kika juntou-se a mim e subiu para o parapeito da janela, dando-me marradinhas nos meus braços, espreguiçava-se e esticava o pescoço tentando espreitar para a rua onde a luz do candeeiro parecia um pirilampo no meio daquela neblina. A Dará sentada no tapete, espetava as orelhas como quem pergunta o que estávamos a fazer àquela hora debruçadas na janela. Sorri para ela e fiz-lhe uma festa, porque eu e ela tínhamos acabado de levar a minha irmã à carrinha de transportes dos bombeiros que a levou, às 6 horas da manhã, até Portalegre onde ela faz hemodiálise 3 dias por semana. Voltei a deitar-me, mas o sono tinha-me deixado com tempo suficiente para eu percorrer pensamentos que nesta altura me fizeram rir e chorar ao mesmo tempo. Época natalícia, celebração do nascimento de Jesus, festa em que as famílias se reúnem, vencendo distancias, ultrapassando discórdias para festejar o amor. e por um momento o coração contraísse-me no peito e faz-me lembrar que não tenho descendência, e que ninguém vem, nem de longe nem de perto celebrar o Natal comigo e umas lágrimas despenharam-se pelo meu rosto e morreram no meu sorriso porque este natal eu não vou passar sozinha.

Raiva

Hoje apetece-me abrir a janela e gritar ao vento este sentimento desconfortável provocado por essa sociedade putrefacta e mal cheirosa onde as mentiras de tanto se repetirem são instituídas como verdades e se revestem de atractivos que fazem luzir o homem, ao ponto de se deixarem dominar pela cobiça e possuir o que não lhe pertence, querendo mais e mais, sem nunca haver um basta. Gritar contra aqueles que usam a politica para seu próprio conforto esquecendo que politica, (denomina-se a arte ou ciência da organização, direcção e administração de nações ou Estados ), não os interesses pessoais, nem para o seu próprio enriquecimento, nem para que escravizarem o povo. Disputam-se lugares que não querem perder, desfalca-se o país com politicas fraudulentas, que beneficiam a conta pessoal e o ego de alguns lidres, com mentiras e favorecimentos, enganam o povo a conta duma justiça que não funciona porque as leis as fabricaram eles. Verdadeiro estrume dentro e fora do parlamento onde alguma gente séria, "que será pouca", outros passivos deixam-se enebriar com os maus cheiros ou mergulham no sono ou nentão nalgum jogo on-line mantendo assim a cadeirinha ocupada e ganharem o bem bom ao fim do mês. Ai que raiva ao ver ladroes de grandes fortunas “colarinho branco” protegidos por essa justiça, que não obriga essa gentalha a devolver o que roubaram dos cofres do estado e por conseguinte dos bolsos do povo. E gritei assim no silencio das palavras o que me faz doer na alma ao olhar para lá dum sonho que a ganância pelo poder frustrou, transformando a politica em gatunagem, desacreditando quem a use.