A minha opinião


William Shakespeare escreveu a seguinte frase :”Lamentar uma dor no passado é criar outra dor e sofrer novamente”.

E li um artigo sobre as mulheres que se bloqueiam depois de ser abandonadas pelo parceiro e se vivem lamentando o tempo todo. Usando citações de pensadores, escritores e também alguns estudiosos e  não concordo.

É difícil deixar de lamentar, quando se investem sentimentos para a vida e depois veem-se despedaçados e tratados como se fossem lixo pelo parceiro.

Eu fechei o meu coração e não lhe dei qualquer oportunidade de amar novamente, sem perceber que o fazia , talvez porque as feridas que ficaram nos sentimentos sangravam tanto que não havia qualquer hipótese de olhar para outros lados que não fosse para mim mesma, pois há que perceber que nem todo o luto é feito da mesma maneira nem com a mesma facilidade.

Eu demorei a resolver essa questão comigo mesma , pois vivi entra a raiva de ter sido enganada e a frustração de ver os sonhos e os projetos para uma vida deitados para o lixo. Fui ao chão derrubada por um sofrimento inexplicável que me levou ao limite e perder referencias nesse labirinto de lamentações e porquês?.

Sozinha e sem família a quem me apoiar, quase que entrei na bolha e cometi suicídio. É fácil opinar, mesmo que sejam técnicos da ária da saúde mental a fazê-lo, é fácil dizer que quem é abandonado vive se lamentando o tempo todo.

Eu estou aqui a discutir com esta ferverozidade, depois de ultrapassar muitas barreiras, muitos constrangimentos, muitas lutas em que quase desisti, mas que saí vencedora, mas ainda não superei a rejeição, que e na opinião da escritora Tati Bernardi: "Mas chega, se não houve troca, chega, porque amar sozinho é solitário demais, abandono demais, e você está nessa vida para evoluir, mas não para sofrer".

Eu era uma mulher tímida mas muito crédula, agora sinto muita dificuldade em acreditar em algo mas em relação ao homem é pior. As vezes chego a recriminar-me pela minha falta de confiança e de oportunidade quando sou abordada por algum homem, chego a ser cruel ao fazer juízos de valores comparando o que é incomparável, porque ainda sinto aquele frio no estômago quando lembro da violência verbal e da chantagem psicológica  e do terrorismo com que fui violentada.

E como o teólogo Henri Nouwen escreveu no seu livro Pão para o Caminho "Às vezes temos que 'passar por cima' de nossa raiva, nosso ciúme ou nossos sentimentos de rejeição e seguir adiante... Talvez seja uma boa ideia dar uma olhada nesses sentimentos obscuros e tentar descobrir de onde vêm. Mas então chega o momento de passar por eles, deixá-los para trás e seguir adiante em nossa viagem".

Não houve ódios, nem ciumes, nem outros sentimentos, porque eu não discernia sobre os sentimentos, apenas um vazio , uma queda a pique em direção ao nada , cega pela escuridão em que foram os meus dias.



Os pensamentos de William Shakespeare, ou de Tati Bernardi , e também do teólogo Henri Nouwen, são apenas palavras , não são experiências de quem viveu a tragédia de ver a vida desfeita e desmoronar e por isso discordo

Eu queria ver-te



Eu queria ver-te hoje à tardinha

E embrulhar-me com o teu abraço

Esperando a noite que se avizinha

Presa nos teus fortes braços.


Que queria saborear aquele beijo

Ouvir o eco dos teus passos

Eu queria ouvir teu riso forte

Quando os olhos se me cerram de desejo.



Meus braços se estendem para ti

Na ânsia que me visses ainda

Como a suave frescura da primavera

E no outono ainda apetecida



Eu queria ver-te à tardinha

Fundir os corações em gestos de ternura

Beijar-te pelas manhãs ao acordar

Anos , meses e dias até ao fim da vida




Meu sonho em pedaços de vida …….

Com sorrisos

Hoje abri a minha janela e escancarei-a, para que o ar freso me penetrasse as entranhas até renovar em mim a esperança e fé perdida.

Respirei fundo, tão fundo, que o meu coração disparou num ritmo frenético e assustado, pois há muito tempo que uma lufada assim oxigênio não penetrava no meu ser mais profundo e intimista onde se escondem as marcas dolorosas em forma de cicatrizes com que a vida me marcou.

No meu rosto rasgou-se um sorriso alegre e vibrante tão feliz comigo que me esqueci que estou chegando quase aos 60 anos

Debrucei-me ainda mais na minha janela até ao lugar da minha fantasia, onde tantas vezes fantasiei o amor, que sonhei viver nem que que fosso por um instante. Um amor sem medo do amanhã, sem mentiras ou hipocrisias. Um amor verdadeiro livre de interesses e poder contar com aquele abraço reconfortante e saudável  que toda a gente deveria ter

Expectante, espreitando os dias dum amanhã que desconheço, mas que sinto curiosidade em viver, enquanto que um misto de vergonha, tenta frustrar esse sonho que eu fantasio, fazendo-me recuar atrapalhada para trás das vidraças , mas com sorriso ainda no meu rosto enquanto  fecho a minha janela 

Sei de cor

O quanto me doem os pensamentos, moídos pela luta que travo entre o querer e não querer transpor a barreira que me separa do imaginário onde te inventei e desnorteadamente te amei acreditando que existias verdadeiramente.

Sinto-me febril e ofegante, o coração bate a mil diante da minha janela.

Quero escrever sobre mim, mas é de ti que eu me lembro, são os teus olhos que eu recordo, é a tua a voz que me seduz e eu sucumbo extasiada ao desejo d e sentir os teus braços rodeando o meu corpo num
abraço sentido e verdadeiro.

Quero acreditar que exististe tal como eu imaginei, nesse sonho que não consegue vencer a distância do tempo, nem se apaga com as investidas dos dias que avançam,

Fui longe nesse percurso, fui para lá do tempo onde a realidade se esconde por detrás das mentiras em que acreditei até sentir-me nauseada pelo fedor do álcool, ainda impregnado nos meus sentidos e num misto de frustração e pena, regressei à minha janela.

Sei de cor todas as palavras daquele manuscrito, onde as palavras são lâminas de dois gumes que ainda hoje  me atravessaram o coração até à alma.

Mas também sei que é pensando em mim que adormeces, nessa cama onde o arrependimento te invade as madrugadas e que sou o pensamento  que tentas afogar sem exito no álcool que ingeres até te embebedares.

Porque sei-te de cor

Meu Amor

O relógio despertou-me às 05:30 da manhã, o dia  deslizava lentamente debaixo do manto negro com que se cobrira de noite, o vento soprava nas folhas dos arbustos que circundam o quintal que fica por baixo da minha janela enquanto que uma chuva miudinha  borrifa o dia que vai acordando.


Levantei-me e espreitei pela janela, onde avistei o silêncio a afastar-se e já bem longe, deixando para trás o latir dum cão e um motor dum carro que por ali passava.


Depois debrucei-me para lá dessa janela e entrei no meu imaginário para ver nascer o sol nesse dia de céu cinzento, ao som da música tocada pelo vento beijando as folhas das flores e das rosas, perfumando o ar que envolve esse meu mundo, onde guardo todos os tesouros e riquezas que me fazem voar no tempo e sonhar as lembranças do passado.


Ontem o dia homenageou as mães e eu não pude abraçar-te, mas lembrei-me de ti do que foste e de tudo o que as tuas lembranças representam para mim, da saudade que sinto, mesmo que o tempo ao envelhecer-me me vá afastando cada vez mais de ti, no meu coração viverás para sempre, minha querida Mãe.


A gata trouxe-me de volta à realidade, ao lamber-me a lágrima que me caia pelo rosto, nesse momento de nostalgia ao lembrar-me de ti, de nós e desses tempos, o dia bem acordado, o ruído instalado e o sol espreitando por entre as nuvens negras  que parecem querer precipitar-se  a qualquer momento, fez-me fechar a janela e regressar ao presente porque o relógio não para e é preciso ir trabalhar.

Encontro


Ao avistar um amontoado de pedras caídas por entre um denso matagal de arbustos, senti uma força estranha que me empurrou e me fez avançar afastando as ferroadelas dos picos das sivas e das ortigas que se escondiam no meio das ervas. Há minha frente surgem os escombros do que um dia muito distante parecia terem sido uma casa, aventurei-me ainda mais e corri ao meu encontrar, ali estava a casa onde eu havia nascido.
Foi mágico esse momento, gritei, abri os braços como quem quer abraçar
e mimar esse tempo  fantasiando através das histórias que meus pais me foram contando do tempo que ali tinham vivido.
A minha sobrinha fotografava cada uma das minhas emoções, é até mesmo o instante tudo ganhou vida e eu me vi a correr naquele espaço e a baloiçar naquele enorme plátano onde meu pai tinha feito para eu brincar e que as crianças da casa ao lado empurravam enquanto eu  ria as gargalhadas.
Foi ali no aconchego daquelas paredes com as dificuldades daqueles tempos, que dei os primeiros passos e disse as primeiras palavras, foi ali que fiz as primeiras birras e dei as minhas primeiras  rizadas, mas para eu comer, tinham que cantar para mim.
Claro que diante daquele amontoado de lixo e pedras soltas que um dia foram paredes lembrei do motivo porque estava na minha terra natal e senti uma enorme dor no peito.

Ao ver o que restava da fábrica onde meu pai trabalhou, as chaminés de tijolo quase a tocar o céu e para onde ergui meus olhos marejados de lágrimas o meu coração soluçou de saudade dos meus pais há muito tempo me deixaram de contar as histórias do tempo em que vivi naquela casa e agora o meu irmão mais velho também partiu ao seu encontro