a pomba

Hoje obriguei-me a escrever qualquer coisa, que me acorde para a vida e me faça ir até há minha janela, sair desta espécie de apatia onde me escondo até sentir pena de mim.

Sacudi a manta onde me enrolei e espreitei para la da chuva num céu cinzento de inverno onde as temperaturas frias nos fazem doer até aos ossos. Aconcheguei-me no casaco de malha quentinho e encostei-me, embaciando as vidro com o vapor quente da minha respiração, com o dedo desenhei um coração e atravessei-o com uma seta e fiquei ali olhando aquele desenho meio naífe a despenhar-se lentamente ate ao parapeito da janela.

A chuva tornou-se mais intensa , os pingos pareciam pedras a bater contra as vidraças, de vez enquanto um rugido vindo de longe soava pelos ares até aos meus ouvidos, quando uma pomba veio abrigar-se no beiral da minha janela. Ela olhava para mim, mas perante o meu ar estático, não se assustou e eu sorri para ela e para mim.

Uma pomba é símbolo de paz , talvez a paz que eu precisava, mesmo em tempo de intensas trovoadas e de chuva, escancarar a minha janela, e gritar o que me alegre, o que me entristece e o que me diverte.
O chuva parou, a pomba sacudiu as asas olhou para mim, rodando a cabeça, como as aves fazem, e ao ver a minha cara rasgar um sorriso voo .

E eu fiquei a pensar

A minha opinião


William Shakespeare escreveu a seguinte frase :”Lamentar uma dor no passado é criar outra dor e sofrer novamente”.

E li um artigo sobre as mulheres que se bloqueiam depois de ser abandonadas pelo parceiro e se vivem lamentando o tempo todo. Usando citações de pensadores, escritores e também alguns estudiosos e  não concordo.

É difícil deixar de lamentar, quando se investem sentimentos para a vida e depois veem-se despedaçados e tratados como se fossem lixo pelo parceiro.

Eu fechei o meu coração e não lhe dei qualquer oportunidade de amar novamente, sem perceber que o fazia , talvez porque as feridas que ficaram nos sentimentos sangravam tanto que não havia qualquer hipótese de olhar para outros lados que não fosse para mim mesma, pois há que perceber que nem todo o luto é feito da mesma maneira nem com a mesma facilidade.

Eu demorei a resolver essa questão comigo mesma , pois vivi entra a raiva de ter sido enganada e a frustração de ver os sonhos e os projetos para uma vida deitados para o lixo. Fui ao chão derrubada por um sofrimento inexplicável que me levou ao limite e perder referencias nesse labirinto de lamentações e porquês?.

Sozinha e sem família a quem me apoiar, quase que entrei na bolha e cometi suicídio. É fácil opinar, mesmo que sejam técnicos da ária da saúde mental a fazê-lo, é fácil dizer que quem é abandonado vive se lamentando o tempo todo.

Eu estou aqui a discutir com esta ferverozidade, depois de ultrapassar muitas barreiras, muitos constrangimentos, muitas lutas em que quase desisti, mas que saí vencedora, mas ainda não superei a rejeição, que e na opinião da escritora Tati Bernardi: "Mas chega, se não houve troca, chega, porque amar sozinho é solitário demais, abandono demais, e você está nessa vida para evoluir, mas não para sofrer".

Eu era uma mulher tímida mas muito crédula, agora sinto muita dificuldade em acreditar em algo mas em relação ao homem é pior. As vezes chego a recriminar-me pela minha falta de confiança e de oportunidade quando sou abordada por algum homem, chego a ser cruel ao fazer juízos de valores comparando o que é incomparável, porque ainda sinto aquele frio no estômago quando lembro da violência verbal e da chantagem psicológica  e do terrorismo com que fui violentada.

E como o teólogo Henri Nouwen escreveu no seu livro Pão para o Caminho "Às vezes temos que 'passar por cima' de nossa raiva, nosso ciúme ou nossos sentimentos de rejeição e seguir adiante... Talvez seja uma boa ideia dar uma olhada nesses sentimentos obscuros e tentar descobrir de onde vêm. Mas então chega o momento de passar por eles, deixá-los para trás e seguir adiante em nossa viagem".

Não houve ódios, nem ciumes, nem outros sentimentos, porque eu não discernia sobre os sentimentos, apenas um vazio , uma queda a pique em direção ao nada , cega pela escuridão em que foram os meus dias.



Os pensamentos de William Shakespeare, ou de Tati Bernardi , e também do teólogo Henri Nouwen, são apenas palavras , não são experiências de quem viveu a tragédia de ver a vida desfeita e desmoronar e por isso discordo

Eu queria ver-te



Eu queria ver-te hoje à tardinha

E embrulhar-me com o teu abraço

Esperando a noite que se avizinha

Presa nos teus fortes braços.


Que queria saborear aquele beijo

Ouvir o eco dos teus passos

Eu queria ouvir teu riso forte

Quando os olhos se me cerram de desejo.



Meus braços se estendem para ti

Na ânsia que me visses ainda

Como a suave frescura da primavera

E no outono ainda apetecida



Eu queria ver-te à tardinha

Fundir os corações em gestos de ternura

Beijar-te pelas manhãs ao acordar

Anos , meses e dias até ao fim da vida




Meu sonho em pedaços de vida …….

Com sorrisos

Hoje abri a minha janela e escancarei-a, para que o ar freso me penetrasse as entranhas até renovar em mim a esperança e fé perdida.

Respirei fundo, tão fundo, que o meu coração disparou num ritmo frenético e assustado, pois há muito tempo que uma lufada assim oxigênio não penetrava no meu ser mais profundo e intimista onde se escondem as marcas dolorosas em forma de cicatrizes com que a vida me marcou.

No meu rosto rasgou-se um sorriso alegre e vibrante tão feliz comigo que me esqueci que estou chegando quase aos 60 anos

Debrucei-me ainda mais na minha janela até ao lugar da minha fantasia, onde tantas vezes fantasiei o amor, que sonhei viver nem que que fosso por um instante. Um amor sem medo do amanhã, sem mentiras ou hipocrisias. Um amor verdadeiro livre de interesses e poder contar com aquele abraço reconfortante e saudável  que toda a gente deveria ter

Expectante, espreitando os dias dum amanhã que desconheço, mas que sinto curiosidade em viver, enquanto que um misto de vergonha, tenta frustrar esse sonho que eu fantasio, fazendo-me recuar atrapalhada para trás das vidraças , mas com sorriso ainda no meu rosto enquanto  fecho a minha janela 

Sei de cor

O quanto me doem os pensamentos, moídos pela luta que travo entre o querer e não querer transpor a barreira que me separa do imaginário onde te inventei e desnorteadamente te amei acreditando que existias verdadeiramente.

Sinto-me febril e ofegante, o coração bate a mil diante da minha janela.

Quero escrever sobre mim, mas é de ti que eu me lembro, são os teus olhos que eu recordo, é a tua a voz que me seduz e eu sucumbo extasiada ao desejo d e sentir os teus braços rodeando o meu corpo num
abraço sentido e verdadeiro.

Quero acreditar que exististe tal como eu imaginei, nesse sonho que não consegue vencer a distância do tempo, nem se apaga com as investidas dos dias que avançam,

Fui longe nesse percurso, fui para lá do tempo onde a realidade se esconde por detrás das mentiras em que acreditei até sentir-me nauseada pelo fedor do álcool, ainda impregnado nos meus sentidos e num misto de frustração e pena, regressei à minha janela.

Sei de cor todas as palavras daquele manuscrito, onde as palavras são lâminas de dois gumes que ainda hoje  me atravessaram o coração até à alma.

Mas também sei que é pensando em mim que adormeces, nessa cama onde o arrependimento te invade as madrugadas e que sou o pensamento  que tentas afogar sem exito no álcool que ingeres até te embebedares.

Porque sei-te de cor

Meu Amor

O relógio despertou-me às 05:30 da manhã, o dia  deslizava lentamente debaixo do manto negro com que se cobrira de noite, o vento soprava nas folhas dos arbustos que circundam o quintal que fica por baixo da minha janela enquanto que uma chuva miudinha  borrifa o dia que vai acordando.


Levantei-me e espreitei pela janela, onde avistei o silêncio a afastar-se e já bem longe, deixando para trás o latir dum cão e um motor dum carro que por ali passava.


Depois debrucei-me para lá dessa janela e entrei no meu imaginário para ver nascer o sol nesse dia de céu cinzento, ao som da música tocada pelo vento beijando as folhas das flores e das rosas, perfumando o ar que envolve esse meu mundo, onde guardo todos os tesouros e riquezas que me fazem voar no tempo e sonhar as lembranças do passado.


Ontem o dia homenageou as mães e eu não pude abraçar-te, mas lembrei-me de ti do que foste e de tudo o que as tuas lembranças representam para mim, da saudade que sinto, mesmo que o tempo ao envelhecer-me me vá afastando cada vez mais de ti, no meu coração viverás para sempre, minha querida Mãe.


A gata trouxe-me de volta à realidade, ao lamber-me a lágrima que me caia pelo rosto, nesse momento de nostalgia ao lembrar-me de ti, de nós e desses tempos, o dia bem acordado, o ruído instalado e o sol espreitando por entre as nuvens negras  que parecem querer precipitar-se  a qualquer momento, fez-me fechar a janela e regressar ao presente porque o relógio não para e é preciso ir trabalhar.

Encontro


Ao avistar um amontoado de pedras caídas por entre um denso matagal de arbustos, senti uma força estranha que me empurrou e me fez avançar afastando as ferroadelas dos picos das sivas e das ortigas que se escondiam no meio das ervas. Há minha frente surgem os escombros do que um dia muito distante parecia terem sido uma casa, aventurei-me ainda mais e corri ao meu encontrar, ali estava a casa onde eu havia nascido.
Foi mágico esse momento, gritei, abri os braços como quem quer abraçar
e mimar esse tempo  fantasiando através das histórias que meus pais me foram contando do tempo que ali tinham vivido.
A minha sobrinha fotografava cada uma das minhas emoções, é até mesmo o instante tudo ganhou vida e eu me vi a correr naquele espaço e a baloiçar naquele enorme plátano onde meu pai tinha feito para eu brincar e que as crianças da casa ao lado empurravam enquanto eu  ria as gargalhadas.
Foi ali no aconchego daquelas paredes com as dificuldades daqueles tempos, que dei os primeiros passos e disse as primeiras palavras, foi ali que fiz as primeiras birras e dei as minhas primeiras  rizadas, mas para eu comer, tinham que cantar para mim.
Claro que diante daquele amontoado de lixo e pedras soltas que um dia foram paredes lembrei do motivo porque estava na minha terra natal e senti uma enorme dor no peito.

Ao ver o que restava da fábrica onde meu pai trabalhou, as chaminés de tijolo quase a tocar o céu e para onde ergui meus olhos marejados de lágrimas o meu coração soluçou de saudade dos meus pais há muito tempo me deixaram de contar as histórias do tempo em que vivi naquela casa e agora o meu irmão mais velho também partiu ao seu encontro 



Descansa em paz

Hoje preciso abrir a minha janela para arejar as minhas ideias e gritar em palavras o silêncio que vem incomodando todos os meus sentidos, causando-me um aperto no coração, pois tenho ficado escondida por detrás das cortinas imóvel e incapaz de chorar. Procuro na memória as poucas lembranças, que guardo do meu irmão dos poucos mementos em que convivemos pois separaram-nos as lonjuras, das cidades onde morava-mos, o rumo que a vida deu a cada uma de nós e a grande diferença de idades que nos fizeram distantes, sem que alguma vez o amor fosse diferente. Vou sentir a tua falta, porque para além de seres meu irmão, muito mais velho, eras a fotocópia do pai, que eu revia cada vez que te visitava e que também nos deixou, à muito tempo e eu senti que foi sedo demais, por ser a mais a nova dos quatro irmãos. . Sinto-me incomodada e sem lágrimas para chorar a despedida que não tive tempo de fazer. Com a janela aberta olho o céu e meu coração diz descansa em paz meu irmão

Pedaço de mim

Os pensamentos desalinham-se, enquanto o coração acelera num pensamento distante, na cidade que me viu nascer, há um pouco de mim e do meu sangue agonizando num leito de hospital e dos meus olhos não caiem lágrimas, qual fonte onde a agua se cansou de correr para o nada. Aproximo-me da minha janela, tentando que o meu pensamento chegue tão longe, de tal forma que seja possível um abraço e um beijo, talvez o último de muitos que não dei. São poucas, muito poucas as lembranças que ficam de ti na minha vida, por terem sido breves os momentos que partilhamos e convivemos, mas és o meu irmão, muito mais velho que eu, com idade para seres meu pai, pois era assim que eu te via. O pai da sobrinha com a idade certa para ser ela a minha irmã. Tropeço nas saudades que sinto dos nossos pais,mas vou ter que acrescentar as que vou sentir por ti quando te tornares mais uma lembrança da família que pouco a pouco se vai desmoronando, quer pelas circunstâncias da vida ou porque o percurso chegou ao fim. Sinto as cicatrizes da minha alma a ferirem-me as entranhas e solidão torna-se medonha em gritos desesperados dentro do meu coração , os olhos de lágrimas inundam-se de lágrimas que não consigo chorar neste desespero. Anseio por noticias, pedindo a Deus que Jesus esteja ao teu lado e seja misericordioso contigo e não o deixe sofrer por muito tempo. Meu irmão é um Homem bom.

Aconteceu

O desânimo, tem-me roubado a vontade de abrir a minha janela e espreitar através dela, mas ontem fui atingida por um dardo inflamado de maldade que me provocou mais que a indignação provocada pelos corruptos e ladrões que crescem como cogumelos no meu querido país.

Admiro tantas as pessoas educadas e respeitosas, porque é assim que me dirijo a toda a gente, independentemente das idades, etneias ou raças com quem convivo, diariamente.

Mas, não foi assim num determinado sítio, balcão de atendimento a onde em determinado momento me dirigi a fim de fazer um pagamento e deparei-me com a antipatia e a má educação numa espécie de gozo que quase me fizeram explodir.

Controlei-me e chamei à atenção pela forma grosseira com que me estavam a atender.

Tudo porque pedi informações, sobre o como? E porquê? Se tenho que ser que ser sócia,
perguntei detalhes e então como associada  deveria ter direito a um cartão, certo ?

Mas sem querer , incomodei bastante.

Porque pouco tempo depois, aconteceu algo extraordinário, uma pessoa
do sexo feminino, que eu não conheço, pois  não estava identificada,
entregou-me um cartão feito ali as pressas, com uma foto colada
acabadinha de ser retirada da minha página do facebook

E a falta de educação que me indignou no inicio do atendimento
culminou com esta espécie de gozo a roçar a humilhação, impregnada de maldade e falta de
respeito.  

Fecho a janela por hoje , com um sentimento de pena , muita pena, a rondar o meu coração.  

Frio

O dia adormeceu envolto num manto negro e gelado, usado especialmente nesta quadra natalícia em que as temperaturas descem para os graus negativos. Aproximei-me da janela, mas o ar condensado da minha respiração, mais o nevoeiro denso e pesado não me deixaram ver para lá das vidraças. A Kika juntou-se a mim e subiu para o parapeito da janela, dando-me marradinhas nos meus braços, espreguiçava-se e esticava o pescoço tentando espreitar para a rua onde a luz do candeeiro parecia um pirilampo no meio daquela neblina. A Dará sentada no tapete, espetava as orelhas como quem pergunta o que estávamos a fazer àquela hora debruçadas na janela. Sorri para ela e fiz-lhe uma festa, porque eu e ela tínhamos acabado de levar a minha irmã à carrinha de transportes dos bombeiros que a levou, às 6 horas da manhã, até Portalegre onde ela faz hemodiálise 3 dias por semana. Voltei a deitar-me, mas o sono tinha-me deixado com tempo suficiente para eu percorrer pensamentos que nesta altura me fizeram rir e chorar ao mesmo tempo. Época natalícia, celebração do nascimento de Jesus, festa em que as famílias se reúnem, vencendo distancias, ultrapassando discórdias para festejar o amor. e por um momento o coração contraísse-me no peito e faz-me lembrar que não tenho descendência, e que ninguém vem, nem de longe nem de perto celebrar o Natal comigo e umas lágrimas despenharam-se pelo meu rosto e morreram no meu sorriso porque este natal eu não vou passar sozinha.

Raiva

Hoje apetece-me abrir a janela e gritar ao vento este sentimento desconfortável provocado por essa sociedade putrefacta e mal cheirosa onde as mentiras de tanto se repetirem são instituídas como verdades e se revestem de atractivos que fazem luzir o homem, ao ponto de se deixarem dominar pela cobiça e possuir o que não lhe pertence, querendo mais e mais, sem nunca haver um basta. Gritar contra aqueles que usam a politica para seu próprio conforto esquecendo que politica, (denomina-se a arte ou ciência da organização, direcção e administração de nações ou Estados ), não os interesses pessoais, nem para o seu próprio enriquecimento, nem para que escravizarem o povo. Disputam-se lugares que não querem perder, desfalca-se o país com politicas fraudulentas, que beneficiam a conta pessoal e o ego de alguns lidres, com mentiras e favorecimentos, enganam o povo a conta duma justiça que não funciona porque as leis as fabricaram eles. Verdadeiro estrume dentro e fora do parlamento onde alguma gente séria, "que será pouca", outros passivos deixam-se enebriar com os maus cheiros ou mergulham no sono ou nentão nalgum jogo on-line mantendo assim a cadeirinha ocupada e ganharem o bem bom ao fim do mês. Ai que raiva ao ver ladroes de grandes fortunas “colarinho branco” protegidos por essa justiça, que não obriga essa gentalha a devolver o que roubaram dos cofres do estado e por conseguinte dos bolsos do povo. E gritei assim no silencio das palavras o que me faz doer na alma ao olhar para lá dum sonho que a ganância pelo poder frustrou, transformando a politica em gatunagem, desacreditando quem a use.

As histórias começam assim:

Era uma vez uma menina, que morava numa aldeia ali para os arredores de Coimbra, quarta filha de um casal já na casa dos 50 anos.
Essa menina era muito à frente do seu tempo , mas as necessidades no lar dessa menina obrigaram-na a ir  trabalhar muito sedo, em vez de  estudar como era do seu desejo. Primeiro para uma fábrica de malhas, depois para uma pastelaria na distribuição, a entregar pelas pastelarias,  quer chovesse ou fizesse sol,  carregando tabuleiros à cabeça a entregar a pastelaria pelos cafés da cidade de Coimbra.

Ela tinha pouco mais de dez anos quando recebeu o seu primeiro salário, em 1968 era admitida na segurança social.

Essa menina cresceu num regime onde até fazer amizades, era um atentado ao regime que governava o nosso pais e mais que duas pessoas a conversar era considerada uma manifestação. Trabalhou entre informadores da PID, a quem também se chamavam “ bufos”.
Essa mulher que quase não teve tempo para ser menina, acreditava que um dia as coisas poderiam mudar, mas para isso era preciso lutar contra as leis, desse regime ditador que limitava os horizontes do povo e do país, de crescer e se desenvolver, mas acima de tudo isso era o castigo dado pela PID a quem se atrevia a manifestar pensamentos ou opiniões contrários aos do governo.

Com a mala do carro cheia de latas de tinta e pincéis, ela e mais alguns crédulos amigos iam pala calada da noite, gritando em silêncio nas pinceladas com que escreviam as palavras contra a ditadura em desejos de liberdade.

E um dia sentada num dos bancos que ladeiam a Praça da Republica em Coimbra, quase que por instinto, correu também ao ver correr outros jovens em direcção a lugares diferentes. Mas esqueceu os cadernos em cima do dito banco. Ainda não tinha chegado ao colégio onde estudava, como trabalhadora estudante, já lá estavam os senhores das gabardinas, com os meus cadernos na mão.
E consequência dessa estúpida fuga, levaram-na com eles.
Foram horas e horas de perguntas para saber o motivo por que ela correu. Baralharam-na com nomes de pessoas, querendo que ela admitisse que conhecia alguns dos jovens envolvidos  naquele  manifesto no dia tal ou no lugar tal, cansaram-na e só não a massacraram mais porque conheciam o seu apelido e  aceitassem a  versão que lhes foi contada, que por acaso era verdade.
Ela viu correr pessoas e assustou-se e correu também, mas também correu por força do hábito.
E quando eram quase horas de almoço, o pai chegou, para a resgatar , mas antes de qualquer pergunta,  desapertou o cinto das calças e quando chega junto dela tira-o das presilhas e atira-o dobrado uma e outra vez, contra o seu corpo, com os olhos rasos de lágrimas, tendo sobre si os olhos fixos homenzinhos, daquela casa de terrores .
O pai bateu-lhe para a libertar e ela nunca esqueceu aquele dia


Aconteceu no século passado, no mesmo ano em que aconteceu Abril 

Solidão

Abri a minha janela e não vi o arco-íris que sempre me estende as suas
cores no mais terno abraço, também não senti aquela brisa que sempre
me beija o rosto, quando espreito para lá de mim.
Encontrei a solidão que teimou em fazer-me companhia.
Depois veio a tristeza e por fim a desilusão, más companhias eu sei,
mas estavam presentes quando chorei, ouviram-me quando gritei e
sentiram comigo a mesma dor que me atormenta nesta hora em que o
arco-íris não veio brilhar no horizonte da minha  janela.

Hoje é dia 01 de Setembro, e eu faço 58 anos.

Depois de ter deixado a minha irmã aos cuidados dos bombeiros, que a transportaram para Portalegre onde foi fazer hemodiálise, subi até ao meu quarto, abri a janela e fiquei ali, até que o tempo me alertou de que estava na hora de me preparar para ir trabalhar. Sem conseguir segurar as lágrimas que se acumularam dentro do peito, e que me faziam doer ao respirar. Lembrei-me de ti querida mãe e senti Tanta saudade, do cheiro da tua pele quando me abraçavas, do som melodioso da tua voz e das fúrias que te davam quando te irritavas comigo. Sei que não me ouves, que não me vez, nem me sentes, mas mesmo assim meu coração sentiu este desejo de te pedir desculpa, pelas contrariedades que te dei enquanto criança e adolescente, e dizer que te amo. Se vivesses, fazias 108 anos no dia 20 de Setembro. Tempo de vida que poucos mortais alcançam. Partiste mas deixas-te na minha memória recordações de momentos partilhados e muitas aprendizagens que me tem ajudado nesta jornada da vida, onde coisas boas e más acontecem e que nos fazem rir e chorar. Só não me ensinaste a defender-me da maldade, porque também não a conhecias, por causa disso sou muitas vezes apanhada desprevenida. Não esqueço mãe aquele dia em que, com respiração ofegante e por de trás dos tubos de oxigénio, me mandas-te vir a Elvas para a entrevista de emprego, sabendo que se eu fosse aceite tu não virias comigo. Continuei à janela um pouco mais deixando as lágrimas caírem para matar esta saudade e dizer-te que a minha irmã “ mãezinha” está comigo e está bem.

Sufocada

Quase que mofo, aqui escondida por detrás da minha janela, por não me ter apetecido abri-la, nem espreitar através dela. Não por falta de assunto que me faça debruçar sobre ela e descrever o que se passa no meu dia a dia consciente ou inconsciente, delírios de uma loucura inconformada com as realidades da vida de muitas gentes que me adoecem os pensamentos e arrefecem o meu amor. Não sei viver de faz de conta, nem pensar de maneira diferente. Ou será que aprendi errados os valores que me ensinaram em criança? Ou será que passaram de moda sem que eu desse por nada? É desconfortável ver como as pessoas tratam a vida de cada um, sem o menor respeito ou sentimentos. É desumano olhar para as vidas que ajudamos a construir sentirmos que não fazer-mos parte delas. É triste amar quem simplesmente nos deixa de amar, porque incomodamos. Sufocada pelo desespero que me provocaram estas interrogações abri a janela para respirar fundo e gritar.

Poquê tanto desespero ?

Chegou-me aos ouvidos um burburinho que me faz abrir a janela e espreitar uma outra janela onde posso ver o desenrolar da novela “poder” que tem liderado as audiências nos últimos dias na cidade de Elvas e freguesias. e também por todo o lado onde existe a duvida sobre quem è realmente o presidente da autarquia de Elvas. Debrucei-me um pouco mais na minha janela deixando que uma rajada de lembranças viesse ao meu encontro para me recordar daquele dia em que, num discurso foram utilizadas as seguintes palavras “ se fecharem a Maternidade eu demito-me”, ou quando se referiam a mim dizendo, “ela só está preocupada com o emprego “ quando eu, em conjunto com as outras funcionárias nos colocamos ao lado do Dr. Melo e Sousa tentando impedir o encerramento da Maternidade. É verdade eu estava preocupada com o meu emprego, porque não tenho outro meio de subsistência e quase para além de, quase ter ficado no desemprego, com o encerramento do bloco de partos que era o meu local de trabalho, incomodou-me de sobremaneira as mentiras que foram usadas para convencer a população de que “nascer na Maternidade de Elvas era um perigo publico” , mentiras que hoje são o que são. E como elvense de coração, pois é conhecida a minha paixão por esta cidade, incomoda-me, quando por alguma razão tenho de falar do presidente da minha Cidade e me fazem a pergunta ” qual deles”. Olho além da minha janela até onde a minha imaginação, me poder levar e escuto as palavras que tem sido ditas na comunicação social ao longo desta semana assim como tudo o que tenho lido sobre o título dessa novela. No dia da inauguração da feira do livro, na apresentação do livro, o autor referiu-se ao sr. Comendador chamando-lhe de presidente Rondão de Almeida, sem que uma única vez fosse corrigido, não gostei., ninguém gostou. Pergunto-me se nos bastidores, entre as eleições e a vitória do Dr. Mocinha,ele terá feito algum acordo para candidatar-se apenas como testa de ferro? Se foi sim, faz sentido o que se tem dito como por exemplo “ ele é o presidente, mas quem manda sou eu “.Ou aquela frase que li recentemente; “ nós o colocamos na Presidência da Câmara.“ E neste conflito de poder parece que o lugar de Vice-presidente não existe e a reivindicação de lugares tenha como única preocupação o lugar de presidente. E então porque não foram apresentadas as renúncias para cair o poder autárquico “presidente “ e realizarem eleições ? É daqui desta janela de onde espreito para lá da minha fantasia que vislumbro essa realidade maldosa de cheiros putrefactos onde a mentira é a rainha que muita gente serve, abdicando de valores e compromissos para se subjugarem a uma razão sem razão para existir.

Bom dia

Por razões que a razão desconhece, há muito tempo não abro a minha janela e nem sequer espreitei através dela o decorrer dos dias desta ausência. Tal como o tempo o meu coração tem atravessando tempestades sentimentais onde o amor se defende a custo dum sentimento malicioso que tenta perturbar-me a vida. Mas hoje aqui estou de portadas abertas e janela escancarada para a vida dando graças a Deus por cada dia e também por me ter dado forças para resistir e manter a fé, por depois de cada tempestade, vem sempre a bonança cheia de sol e alegria. E também aconteceram coisas boas, como a primeira Gala do Coração em Elvas que se realizou no Cine teatro no dia 21 do mês de Junho, com artistas guianenses e fado, uma fusão que foi ouvida pelo mundo através da RDP África, como também através da Internet em linha aberta e foi um sucesso atingindo-se os objectivos, que foi angariar roupa de bebé e recém-nascido para a Maternidade do Centro Medico Emanuel da Guiné-bissau, quase tonelada e meia que dará para vestir os bebés que ali nascem durante quase e seis meses. São esses momentos que me servem de armas contra o desamor que tem me atormentado o coração e o pensamento e impedido de abrir a minha janela, mas hoje com ela escancarada gritei bem alto, bom dia alegria e dei uma abraço gigante a toda a gente que eu conheço e que se encontra espalhada pelo mundo.

Hoje Abril

Por falta de espaço para gerir os acontecimentos que me assaltam os sentimentos ao longo dos dias, perco a vontade de abrir a minha janela e olhar para lá  das vidraças o mundo que me rodeia.
Mas hoje escancarei-a e debrucei-me para arejar as ideias e deixei esvoaçar as cortinas da minha imaginação voarem tão longe que dei por mim diante daquele dia em que a Maternidade Mariana Martins foi encerrada.

Diante da ilusão na luta pelo seu funcionamento, na recolha das assinaturas para um baixo assinado que não foi entregue em lado nenhum, do protagonismo que a causa deu a algumas caras ao cocarem-se ao lado da interessante defesa do Dr. Melo e Sousa sustentada por um testamento em que a benemérita doava a cidade em favor da mulher, do parto e crianças.

Essa lembrança causa-me ainda algum constrangimento, porque as mentiras e os oportunismos que envolveram todo o processo se transformaram em terrorismo para com as funcionárias da Fundação que ficaram durante 7 meses dentro das instalações da mesma impedidas de trabalhar.

Diante dessa lembrança do passado vejo-me no presente onde o Hospital de Elvas se encontra sobre a ameaça de ver cumprido o projeto iniciado com encerramento a sala dos partos da Maternidade, e que tinha a finalidade, encerrar as urgências.

Grito em silêncio para lá da minha janela, agoniada com malabarismo que a mentira tem feito ao logo do tempo vencendo e convencendo o povo a calar e a perder sem reivindicar aqueles direitos conquistados num dia de Abril.


O coração acelera com esse pensamento e sinto uma espécie de raiva  e nojo dessa gente sem escrúpulos que durante quarenta anos destruiu a liberdade de Abril e o sonho dos portugueses.

VOLTASTE

Ai como foi bom acordar nos teus braços, sentir esse beijo quente e suave na minha pele e se não fosse o vento a baloiçar nos ramos daquela árvore eu tinha escancarado para ti, a minha janela. Mas fiquei um pouco mais ali deitada, a contemplar-te enquanto tu percorrias os contornos do meu rosto, ofuscando-me a visão com a reste-a de luz com que me acariciavas.
.
Já tinha gritado nalguns momentos o teu nome e quase desesperei com saudades do teu calor, dos teus cheiros, das tuas cores e da felicidade que me fazes sentir quando apareces. Tudo floresce ao teu redor e até as aves se alegram no céu ao sentir a tua presença.

Que bom saber que vais ficar por cá, algum tempo, que me vais acordar e fazer sorrir a cada manhã e que o cinzento vai ter luz e os teus abraços quentes vão matar esta saudade que sinto cada vez que te ausentas da minha janela, quando vais para outros lugares.

Mas quando regressas, não vens sozinho. Com pincéis de luz  pintas arco-iris e flores de todas as cores em paisagens estonteantemente belas nessa tela gigante que é o meu Alentejo, e trazes contigo a primavera.