Não dormi esta noite,

Deitada na minha cama fiquei a olhar as prateleiras do meu quarto vazias, depois fixei-me na mala e fiquei ali pensando acordada até que a luminosidade entrou dentro do quarto a anunciar o nascer de mais um dia.Foram muitos os pensamento numa batalha que o sono não venceu por que cada vez que fechava os olhos , sentia o  bater do meu coração tão forte dentro dos meus ouvidos e despertava novamente.
Estou ansiosa pela chagada, mas angustiada com a partida.
Deixo para trás momentos inesquecíveis pelo que recebi desde lugar de gente muito simples e muito humilde, mas com um coração repleto de amor pelos outros, trabalhando arduamente movidos nesse mesmo amor, com o salário que é o próprio amor.
Vim para ensinar, mas fui eu que aprendi a viver sem sentir necessidades das coisas não tinha, nem senti falta das coisas que deixei e com as quais não prescindo na minha casa em Portugal.
Aprendi a valorizar coisas pequenas e simples que noutra realidade passam despercebidas e sem interesse mas que são tão essenciais a vida quando o nada é tudo o que se tem.
Obrigada a DEUS pela lição , pelo amor e por esse grande mandamento escrito no manual da vida que é a Bíblia.
João 13:34;Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.
Obrigada às missionárias/os e a todos os que me ajudaram nestes 2 meses que passei na Casa Emanuel e também ao pessoal com que  trabalhei. Não vou dizer adeus , mas  sim até breve.
Mas antes ainda vou festejar o Natal a festa de aniversário de Jesus ,louvando e agradecendo tudo o que Ele fez por mim e receber a minha prenda do amigo secreto
Isaías 9;6: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.

Apeteceu-me escrever

Porque hoje é domingo ,21 de Novembro, bateram-me a porta do meu quarto e comunicaram-me que acabara de chegar uma grávida com dores.
Levantei-me à pressa não fosse o caso de estar mesmo a parir, mas quando a observei , não estava em trabalho de parto.
Doía-lhe o corpo, porque ardia em febre, com episódios frequentes de vómitos.
Foi internada e após observação médica com o diagnóstico, paludismo , iniciou quinino entre outros medicamentos que são habituais nesta realidade , bem diferente da qual eu estava habituada.
Enquanto a medicação lhe percorre o corpo, a febre, baixou e sem dores a grávida adormeceu e eu sentei-me a seu lado não só para lhe fazer companhia mas também para me sentir, eu também acompanhada.
Fiquei a olhar aquele rosto adormecido e pensei se mesmo dormindo essa mulher podia sonhar, com apenas 15 anos  já vai ser mãe.
Não há meios anticoncepcionais disponíveis, não há informação sobre os riscos e tudo o que possa existir custa o que não tem .

As mulheres casam muito sedo, com mais outras quantas para trabalhar e servir o mesmo homem, servir na cama , sem prazer, sem amor e no trabalho árduo, com os filhos ao seu redor que mais parecem os seus irmãos mais novos.

Desde a Guiné-Bissau

A todos os meu amigos que  vistam o meu espaço onde vou tentar deixar um pouquinho da minha experiência como missionária neste País, também à beira mar plantado, mas onde os recursos são escassos e raros e pagos muito para alem das possibilidades de cada um, porque o tudo aqui é quase nada para o povo guineense .Ainda não me aventurei para lá dos muros da Casa Emanuel onde de manhã até que anoiteça, confundem-me os sons do gerador com as gargalhadas das crianças a brincar no pátio do orfanato mesmo por debaixo do meu humilde e limpo quarto onde me deixo adormecer com o silencio do gerador e que liga quando o dia amanhece novamente.
Desde que cheguei ando a familiarizar-me com tudo,com as pessoas e também com a Maternidade qvai estando praparada para abrir as suas portas
Sinti  grande emoção ao encontrar-me com o equipamento que foi pertença da maternidade de Elvas , mas melhor do que todos esses sentimentos é este lugar , onde apesar da dificuldade em respirar pelo calor e o grau de humidade que se faz sentir, eu sinto-me bem aqui.
Obrigada aqueles que fizeram possível a minha estada aqui.

As horas estão a passar lentas mas o dia marcado para a viagem aproxima-se.

Ordeno calma ao meu coração e sussurro palavras tranquilas ao meu pensamento enquanto aumenta a ansiedade dentro do de mim.

Arrumo e desarrumo as malas dou a volta a manuais de instruções que revejo, para não ver o tempo passar.

O último documento que faltava já chegou da Guiné-Bissau, em correio electrónico

Com as novas tecnologias vou estando em contacto com a missionária Ana Isabel que se encontra na Casa Emanuel, ( Emanuel quer dizer Deus com nosco) tenho acompanhado alguns dos trabalhos e projectos dessa missão e sinto no meu coração uma grande tranquilidade e paz quando oiço por aqui algumas opiniões sobre o estado do país e das suas necessidades que me aumenta ainda mais a vontade de lá chegar.

Por aqui fica o meu amor num abraço grande e apertado até ao dia que vou voltar cheia de saudades de tudo e todos nesta cidade que eu amo tanto.

Durante a minha estada lá, irei dando noticias através do facebook ou aqui no blog e assim poderão acompanhar-me no projecto que a Fundação Mariana Martins ali vai desenvolver, que é, a de por em funcionamento o equipamento que pertenceu à Maternidade.

O Beke adormeceu para sempre

Como se encontram as palavras para dizer o quando dói perder uma amigo?
Como se preenche o espaço vazio, que esse amigo  nos deixou?
Não sei, só sei que me dói um sentimento dentro do peito quando não vejo aqueles olhos arregalados a tentar ler-me os pensamentos enquanto escutava a minha voz, aquela cabeça que parecia sair do lugar quando  se dizia a palavra rua.
A  amabilidade com que recebia as visitas e as festas  que lhes fazia e depois o seu desespero quando começavam as despedidas, porque não queria que me deixassem sozinha.
Um cão inteligente que me amou incondicionalmente sem se preocupar com o que recebia em troca, que esteve do meu lado quando a vida perdia o sentido, ela foi o amigo que me ajudou  e segurou naquele impulso que tem as pessoas desesperadas, ao fazer-me sentir que  precisava dos meus cuidados.
Despedi-me dele num abraço forte de gratidão enquanto ele adormecia para sempre nos meus braços .
Não vai voltar a correr pela casa nem vou ouvir o seu latido de alegria à minha chegada , pulando à minha volta. O silencio é estranho e já tenho saudades.
Amigos assim deviam viver para sempre ao nosso lado, mas a morte é a consequência da vida.

Dois meses na Guiné_Bissau


A chuva cai intensamente arrastada por rajadas de vento estrelocado que não sabe para onde soprar. Tal como o meu coração que se distrai na minha mente em pensamentos que o fazem bater tão rápido que quase dificulta o meu respirar.
O encontro com o equipamento da maternidade da Fundação Mariana Martins, doado para o Centro Medico da Casa Emanuel na Guiné-Bissau, vai ficando cada vez mais próximo e a ansiedade vai crescendo.
Estou feliz por ainda poder ser útil no curso em que me formei com tanta dedicação e onde me dou por inteiro e que apesar da idade me faz por em prática os sonhos que sonhei em menina.
A chuva continua a caiar, batendo de encontre ao telhado de zinco do alpendre do meu quintal, mais calma, porque já não há vento, mas a embalar este pensamento que esvoaça entre o passado e o presente para sorrir nesse futuro que se apresenta na minha vida cheio de dificuldades e muitos espinhos, sem que eu sinta qualquer espécie de medo.
Obrigada Deus por renovares as minhas forças  a cada dia que passa e guiares os meus passos na tua direcção, porque só TU  és o Senhor da minha vida.