Hoje

Abri a janela daquele que é neste momento o meu quarto e espreitei para longe, acompanhada pelos som de risos, gritos e choros, das crianças, que brincam aqui por debaixo da minha janela e pássaros a cantar, nas árvores parecendo uma majestosa sinfonia tocando só para mim,  neste lugar tão distante, tão longe do conforto da minha casa e das pessoas que amo.
Meus olhos transbordaram de lágrimas ao ouvir som dos cânticos vindos do refeitório do orfanato onde as crianças dão graças a DEUS cantando pela comida que tem no prato.
Um pássaro desperta-me a atenção ao mexer-se por entre a ramagem da árvore diante da minha janela, lindo coberto de penas azuis, que me olha curioso, mas que eu reconheci de imediato, como sendo aquele um dos vizinhos que chilreiam durante a noite e me acordam com os seus pius, parecendo que discutem pelo lugar no raminho que lhes serve de poleiro.
E mais pássaros esvoaçam bem perto da minha janela, de cores lindas, pequeninos e maiores, de varias cores, com penas avermelhadas e amarelo fogo lindos, saltando de ramo em ramo, diante dos meus olhos e cantam cada um com a sua melodia uma mais linda que a outra, fazendo-me explodir de emoções e sentir a saudade invadir o meu coração.
Saudades, que eu já tinha saudades de ter saudades.
Porque foi aqui que me encontrei em 2010, aqui renasci para a vida e esqueci de me lamentar, de ter pena de mim, e  como criança que perde o medo eu dei os primeiros passos em direcção ao futuro que DEUS preparou para mim quando eu desisti de viver.
Respirei fundo e senti esta alegria inexplicável junto da minha saudade, invadindo o meu coração de prazer por estar aqui neste lugar ajudando com o pouco  do meu saber. desejando que este contribua  para que as mulheres desta nação possam ser acarinhadas e bem tratadas na hora dos seus filhos nascerem.
Nada acontece por acaso na vida de ninguém.
Eu tinha que vir aqui  e  voltar depois e quem sabe se voltar ainda mais vezes ,mas para isso , primeiro chorei e sofri e para aprender a ser forte, "Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes." -Friedrich Wilhelm Nietzsche

Farim



As palavras, baralham-se de tal forma no meu cérebro que quase não consigo dar-lhes forma e escrever o que tenho para dizer do lugar que visitei.
Aqui diante da folha virtual a olhar para o nada que resta desse tempo que envelheceu e esbateu até perder as cores das coisas que mal consigo recordar.
E talvez, por ouvir  falar tanto deste país e das histórias  que me contaste , tropecei nessas lembranças  e  procurei-te nesse tempo ao visitar esse lugar.
Encontrei, ruinas e escombros dum tempo que se, existiu, quase ninguém sabe contar.
Lembrei-me que, lugares vazios, também acontecem na vida em cujas ruínas, os estilhaços nos marcam o coração de cicatrizes tal como um país ferido pela guerra.
Farim, foi um nome que decorei e encontrei quase exactamente como fora no passado, mas com outras gentes.
De repente lembrei-me que vi fotos tuas, que tiraste quando estiveste aqui e procurei-te em cada recanto e pronto estavas ali diante da mira da minha camara enquanto eu semicerrava os olhos.
Continuamos?- Estremeci ao ouvir aquela voz e fiz rir uns, dentes muitos brancos no rosto negro do homem que me acompanhava pelo lugar.
Depois, sentada no banco traseiro da carrinha que seguiu para Bula, consegui a custo segurar as lagrimas que teimosas pretendiam desrespeitar o meu silêncio e denunciar o meu segredo.
Captei, o brilho dos teus olhos, o teu sorriso e ouvi a tua voz cantando ao som dos acordes saídos dos teus dedos abraçado a tua viola naquele instantâneo fotográfico do meu imaginário
Foi mágico esse momento rebuscado ao tempo em, que se deixa de sonhar e as amarguras qual, erva daninha se emaranharam às ruínas da nossa história abandonada.
Lembrei de ti nesse encontro com o tempo e senti saudade do amor que morreu asfixiado nas garrafas de uísque tornando-te incapaz de fazeres alguém feliz.
Eu não merecia!!...
Gritei em silêncio durante anos e foi o gemido do meu coração, naquele lugar chamado  Farim.

Voltei a Guiné Bissau



Desta vez a viagem foi mais tranquila,o viajante que se sentara ao meu lado, não se calou em toda a viagem.
E quando o avião aterrou no aeroporto de Bissalanca e se abriram as portas o ar impregnou-se de imediato dos cheiros que tornaram todos os odores ainda mais intensos e até eu já cheirava a africa.Desci as escadas com o coração  a bater tão rápido que mal conseguia respirar pela emoção de voltar à Guiné Bissau. 

Ao passar pelo control , mandaram-me abrir a mala de viagem, para fexar de seguida e lá saí para fora do aeroporto onde o missionário deveria estar a minha espera, mas ainda não tinha chegado  e permaneci ali durante algum tempo olhando meu redor tentando encontrar esse rosto  familiar que me ia buscar. Ao contrario dos outros dias o avião chegou mais cedo que o habitual
Táxi? …Precisa táxi? Gritavam-me do outro lado da rua, numa mistura de crioulo e português, ao qual eu ia abanando a cabeça dizendo que não precisava.
O vizinho do assento ao lado no avião, depois de ter colocado as malas no carro que o viera buscar, ficara a fazer companhia e falou…falou de novo tanto, mas eu já não o ouvia, pois toda a minha atenção estava virada para cada carro que chegava vindo do meio da escuridão que fazia para la da entrada para o aeroporto.
Mas de repente alguém tocou no meu ombro dizendo o meu nome e, que alivio, era a voz do missionário que me vinha buscar.
A partir daí tudo foi mais facil e quando avistei o grande portão vermelho da Casa Emanuel, não consegui segurar aquela lágrima que espreitava nos meus olhos desde que saí de Portugal, caiu finalmente  livre até molhar o meu rosto e eu soluçar.
Não encontrei palavras para descrever a mistura de emoções que  ferveram no peito para dizer o que senti quando fexei atrás de mim a porta do quarto que vai ser o meu espaço durante os 6 meses que vou ficar aqui.
Chorei  e ri até adormecer.

Abandono


A família juntava-se na igreja para dizer o último, adeus ao seu ente querido e acompanha-lo a sua última morada no cemitério.


Vi uma cadela a rondar sem se aproximar, lembrando-se do tempo em que vivia naquela família e talvez do dia em que foi abandonada no meio do caminho, por um dono que se aborrecera da sua companhia.
Aproximava-se devagarinho farejava os cheiros e os hábitos que ainda lhe eram tão familiares, reconhecendo os sons e os gestos que aprendera a amar e aos quais fora submissa.
Uma ou outra pessoa reparava nela e fazia-lhe umas festas reconhecendo-lhe o abandono e talvez até sentissem pena da pobre bicha, que de rabinho pendurado estremecia com medo que a espantassem dali por ela já não pertencer aquela família que ela amara tanto.

E quando se sentiu segura num lugar de onde poderia observar aquietou-se e ficou ali ignorada por uma multidão de gente e chorou por aquela que a tratara bem.

Diante dos seus olhos passou aquele que um dia fora o seu dono e que a trocara por outra que agora leva a seu lado presa por outra trela

Nesse instante senti bater ofegante e a dor no coração dessa cadelinha, que gemeu ao cheirar o odor que ficara no ar depois da sua passagem

O animal ergueu-se, levantou o focinho e foi embora sozinha...Eu fechei a minha janela e chorei porque senti o abandono daquela cadelinha

A diferença

Talvez tivesse pouco mais que 14  anos , trabalhava nas Fábricas de Bolacha Triunfo, quando comecei a estudar de noite mas era feliz.
Ambicionava ser veterinária mas o sonho escorregava-me das mãos, ao ter que trabalhar para ajudar meus pais e era feliz.
Desloquei-me a pé durante muito tempo e depois de bicicleta para o trabalho e fazia mais de 20 km diários com pouco mais de 10 anos e era feliz.
Com o 25 de Abril o sonho e a esperança deram-nos outro alento e perspectivou-se algo melhor para a vida, benéfico na velhice, com reformas dignas numa sociedade democrática onde as riquezas fossem repartidas pelos que contribuíam para economia da nossa querida nação livre da ditadura e da PIDE.
Sonho frustrado.
Hoje não estudas à luz da vela, ou do candeeiro a petróleo, já não escreve na tábua de ardósia, não andas a pé , nem começas a trabalhar aos 10 anos , mas não és feliz.
Apesar das novas tecnologias e de tudo estar a distancia dum clique, dormes intranquilo/a e sem esperança no futuro e não és feliz.
És escravo dessa revolução tecnológica, és manipulado por essa máquina da qual apenas és um número e não és feliz.
Por isso começo a ter saudades do tempo em que estudava a luz do petróleo e de muitas outras coisas que eu não tinha.
Há quem diga que se vive melhor agora.
Vive-se de fachada, aparência, pois a maioria do povo trabalhador passa dificuldades e ainda tem que pagar o dinheirinho que não gastou, nem viu, como os desfalque do banco do BPN, as derrapagens feitas pelos s burlões do governos e outras coisas mais que a justiça ilibou e ainda ajudou, pois o montantes desviados “ roubados “ continuam nas contas de quem arrecadou os euros da nossa Nação.
Pagamos os gastos, o carro o chofer  a gasolina e outras regalias que nem eu nem tu sabemos, desses funcionários tão públicos como qualquer um e que  adormecem no parlamento.

Um povo infeliz e escravo do poder que sustenta a guerra onde as bombas não explodem , nem  derrama de sangue, mas há morte

As minhas pinturas

Vendo

Por do sol Alentejano com um cheiro Africano

                                                        Monte Alentejano
                                                            Monte Alentejano